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A atualidade na Bielorrússia

  • Foto do escritor: Manuel Brito-Henriques
    Manuel Brito-Henriques
  • 15 de ago. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2020

No passado dia 10 de agosto, Aleksandr Lukashenko foi eleito, pela sexta vez consecutiva, presidente da Bielorrússia. O líder bielorrusso é visto, por este mundo fora, como o líder antidemocrata mais antigo da Europa. Nestas últimas eleições, o mesmo enfrentou Svetlana Tikhanovskaya, vencendo com 80% dos votos, segundo informações oficiais. Tikhanovskaya rapidamente se dirigiu aos bielorrussos, declarando-se legítima “vencedora das eleições”, mas, como referido, não foram essas as informações tornadas oficiais, o que originou contestação por parte do partido e dos apoiantes da pró-democrata, que consideraram existir uma fraude eleitoral.

Após serem revelados os resultados finais da eleição, tensas manifestações fizeram-se sentir em todo o país, com especial destaque para Minsk, capital da Bielorrússia, onde inúmeros manifestantes saíram gravemente feridos, já depois das forças policiais terem admitido controlar a “situação em relação às ações de massas não autorizadas”. Os desacatos têm-se estendido, registando-se mais de três milhares de detidos, alguns deles já libertos com a contrapartida de não voltarem a participar em manifestações antirregime. Perante a situação vivida, milhares de cidadãos bielorrussos aderiram a uma ação que visa formar cordões humanos na rua de Minsk, de modo a que seja lembrado e criticado o duro tratamento a que as forças policiais têm sujeitado os cidadãos. A própria União Europeia interveio, mostrando interesse relativamente ao número oficial de votos, de modo a poder ser esclarecida a legitimidade do vencedor, dado desconfiar dos resultados apresentados. A juntar a este pedido, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, mostrou o seu desagrado e preocupação perante os desacatos entre forças policiais e manifestantes, assumindo que “a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e os direitos humanos básicos devem ser defendidos”, recorrendo ao Twitter para defender a sua posição.

Mediante a pouca liberdade de expressão existente no país da Europa de leste, Tikhanovskaya foi ameaçada e perseguida, tendo emigrado para a Lituânia para junto de seus filhos, no dia 11 deste mês. Horas antes de decidir o destino e ser acolhida pelos líderes lituanos, a ativista ordenou a seus apoiantes que aceitassem a vitória de Lukhashenko e que se acabassem os protestos, através de um vídeo onde foi forçada a dizer tais palavras, com a garantia de que poderia rumar à Lituânia, ao passo que Maria Moroz, responsável pela organização da campanha da oposição, seria liberta. Chegando a solo lituano, a líder da oposição ao regime de Lukashenko começou por justificar a decisão de rumar à Lituânia, num vídeo partilhado nas redes sociais, e onde considera que “as crianças são as coisas mais importantes das nossas vidas”, compreendendo que muitos não entenderão a decisão “complicada mas totalmente independente”, e que apesar de “muitos entenderem” a sua saída do país, tem noção de que muitos a “irão odiar e condenar”, desejando que “ninguém tenha de tomar a mesma decisão”. Agora, aproveitando o exílio e capacidade para se expressar e comunicar aos manifestantes de forma livre, Tikhanovskaya pede para que não parem de lutar, embora de forma pacífica, pela liberdade da Bielorrússia.

Quanto à vida pessoal e profissional de Svetlana Tikhanovskaya, a mesma é professora de inglês, tendo um vasto conhecimento da língua inglesa, aquando da sua presença na Irlanda, ainda jovem, servindo de intérprete a diversos ucranianos que lá se refugiaram, após a explosão nuclear em Chernobyl. A política entra na vida de Svetlana de forma a salvaguardar a honra e os desejos de seu marido, Sergei Tikhanovsky, que em maio em maio de 2020 decidiu candidatar-se às eleições agora realizadas, o que lhe foi impedido pelo presidente bielorrusso que o mandou prender 2 dias depois de se ter anunciado como candidato, numa forma clara de limitar o poder daqueles que fazem oposição à governação. Sergey Tikhanovsky tinha um canal na plataforma YouTube, onde narrava a vida complicada que o povo bielorrusso tinha de suportar, motivando-o a envergar por uma carreira ligada à política, com a intenção de derrubar o regime autoritário. Uma vez que o marido estava impossibilitado de concorrer a tal lugar, Svetlana acabou por assumir o papel de líder da oposição, superando as expectativas impostas por ela própria, num país visto como machista e onde a mesma teve de acarretar com diversas ameaças de violência física e sexual, muitas delas impulsionadas pelo próprio Lukashenko, que após a candidatura oficial da ativista bielorrussa, alertou para a “impossibilidade do país ser governado por uma mulher”, razão pela qual a ativista resolveu enviar os 2 filhos para a Lituânia, recenado que não estivessem seguros no na Bielorrússia. Svetlana admitiu pretender ser eleita, com o objetivo de poder tirar o marido da prisão, e após libertá-lo, convocaria eleições antecipadas, às quais Sergey Tikhanovsky se iria candidatar. O mesmo acabou por não acontecer, mantendo-se Aleksandr Lukashenko no poder da Bielorrússia.

Não se avizinham tempos fáceis nem pacíficos para o país que faz fronteira com a Rússia, Ucrânia, Polónia, Letónia e Lituânia, esperando-se diversas revoltas e um período crítico no que à segurança do país diz respeito, e apesar de Lukashenko se manter confortável no poder, o mesmo já pediu auxílio a Vladimir Putin, por assumir que estes protestos constituem “perigo para outros países”.


Imagem de Afonso Silva

 
 
 

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