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O massacre de Xinjiang

  • Foto do escritor: Manuel Brito-Henriques
    Manuel Brito-Henriques
  • 31 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

A população chinesa de etnia uigur está perto de corresponder ao número total de portugueses. No entanto, essa etnia é considerada uma minoria étnica na China. Para além disso, esta é apenas uma de várias dezenas de etnias oficialmente reconhecidas pelo país asiático. O Islão é a religião praticada pelos uigures, sendo estes, na sua generalidade, sunitas. Os Uigures localizam-se, na sua maioria, em Xinjiang, uma Região Autónoma da República Popular da China. Essa região é historicamente conhecida pelos conflitos aí existentes. Primeiramente, Xinjiang era dividia em duas regiões, as quais foram reconquistadas pela China, no século XVIII. Antes da reconquista desse território, o controlo do atual Xinjiang era dos uigures, razão pela qual permaneceram no local até aos dias de hoje. Segundo o Governo chinês, os uigures, originários da Turquia e presentes em países como o Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão, são enviados para os intitulados “campos de reeducação”, localizados em Xinjiang, que, segundo o mesmo Governo, tem a intenção de “combater o radicalismo religioso”. Presume-se que estes campos tenham sido criados em 2014. Todavia, numa primeira fase foi negada a sua existência, mas, em 2018, e sem ser possível cobrir mais a existência desses estabelecimentos, o Governo assumiu o seu funcionamento. Apesar de os uigures serem os maiores ocupadores destes campos de internamento, pessoas que não sejam de etnia Han, a qual representa a população chinesa em cerca de 90%, estão mais próximas de os integrar, caso a religião praticada seja o islão. Estima-se que mais de 1 milhão de uigures e outros muçulmanos estejam a ser mantidos nesses campos.

Quanto ao propósito destes campos de reeducação, ademais do combate ao radicalismo, os meios de comunicação chineses davam a entender que estes se tratavam de escolas de correção, onde os cidadãos uigures, vistos como radicais devido a todo um passado recente de confrontos com a autoridade máxima e, especialmente, pela existência do movimento extremista “Movimento Islâmico do Turquestão Oriental”- responsável por protagonizar ataques bombistas-, tornar-se-iam cidadãos ponderados, seguindo um plano de aulas de chinês, teoria jurídica e o desenvolvimento de habilidades para o trabalho. Mais tarde, soube-se que alguma dessa instrução assentava em vangloriar a República Popular da China e Xi Jinping. Os tais confrontos favoreceram a implementação das medidas visíveis ao longo deste texto, dando início a episódios violentos e, até mesmo, genocidas. A origem destes confrontos prendeu-se no facto de os uigures considerarem discriminatória a forma como eram tratados. Esta opressão contra uigures é uma forma do governo chinês manter o controlo da região, visto que o Movimento para a Independência do Turquestão Oriental havia vindo a ganhar cada vez mais apoiantes, num lugar em que a cultura chinesa não se faz sentir com grande intensidade. Aquando da entrada de uigures e outros muçulmanos, é-lhes dito que “o islão é uma doença” e que estão ali apenas com o objetivo de “serem curados”.

Relativamente às instalações e aspeto dos campos, há a destacar o elevado número de estabelecimentos que têm vindo a ser construídos, contando-se mais de uma centena destes campos e com grandes perímetros. Os campos caraterizam-se pela existência de mais de uma dezena de torres de vigilância e pelos grandes muros que os separam do exterior. Os prisioneiros estão distribuídos por celas e não lhes são oferecidos quaisquer cuidados de higiene. Todavia, são poucas as imagens reveladoras, dado que as autoridades restringem ao máximo a sua captação.

No que diz respeito à vida dos colocados nestes campos de internamento, tem de ser realçado o tratamento dado aos reclusos, comprovado pelo testemunho de alguns indivíduos, tanto homens como mulheres, em reportagens da BBC e da Al Jazeera. Apesar da natural contradição por parte das entidades superiores, os entrevistados enumeraram os abusos por que têm de passar, como o aborto forçado, a esterilização, a violação, o trabalho forçado, a tortura, a lavagem cerebral a que são sujeitos- principalmente as crianças-, a extração de órgãos e, sobretudo, o genocídio, como já mencionado. Quanto ao trabalho forçado, a região de Xinjiang é muito rica em algodão e outros produtos, suportando-se a ideia de que muito do trabalho a que os prisioneiros estão sujeitos assenta no fabrico de produtos de grandes marcas, algo que foi justificado por parte de alguns ministros como “ajudar a desenvolver habilidades de trabalho”. As ex-prisioneiras dão a conhecer o mundo cruel por detrás dos muros, admitindo terem sido vítimas de violação física e sexual por parte de guardas e, por vezes, torturadas a partir de eletrocussões nos órgãos genitais. Algumas, após serem libertas, optaram por abandonar o país, arrastando consigo todos os traumas, usualmente originados por atos sexuais não consentidos. Outras tinham de despir e algemar à cama as mulheres jovens pelas quais os guardas pagavam para ter relações sexuais. Caso recusassem cooperar com esses guardas, era-lhes aplicada uma grave punição. Estas acusações foram prontamente desmentidas pelo Chefe de Estado chinês e por Wang Wenbin, Ministro das Relações Exteriores da República Popular da China. Contudo, um ex-guarda foi também entrevistado, confirmando o que já havia sido referido pelos antigos reclusos e avançando com informações menos conhecidas. Segundo o mesmo, cada cela continha entre 8 e 16 homens ou mulheres, que eram sistematicamente vigiados. Recentemente, segundo noticiou o Expresso, a oposição ao Governo de Erdogan tê-lo-á acusado de utilizar uigures de nacionalidade turca como moeda de troca para obter vacinas, não existindo provas suficientes que comprovem tal acusação.

Nos últimos tempos, surgiu uma grande onda de solidariedade para com as vítimas destes maltratos. Como tal, foi redigida uma petição que exigia a intervenção da ONU, de modo a que se dê o fim da perseguição a membros da etnia uigur a habitar em Xinjiang e nas restantes regiões do país. Surgem como autores desta petição Nawid, estudante muçulmano proveniente dos Países Baixos, e Mischa, mulher judia proveniente da Alemanha. Nawid procurou criar a petição visto encontrar-se “preocupado com o problema”, porque, “como ser humano com direitos humanos básicos”, sentia-se com a “responsabilidade de fazer algo”. Quanto a Mischa, como judia a viver na Alemanha, acreditou sempre na frase “Nunca Mais” - relativa ao genocídio da Segunda Guerra Mundial-, aceitando-a como “aproximadamente válida e uma premissa para a maioria das pessoas”, pelo que as notícias que lhe chegavam da China a deixaram com um grande sentimento de “responsabilidade”. A petição de Nawid e Mischa conta, de momento, com 2 milhões de assinaturas.

Alguns países, nomeadamente os estados-membros da União Europeia, os Estados Unidos da América, o Canadá e o Reino Unido, oficializaram a sua oposição quanto à aparente violação dos direitos humanos por parte da República Popular da China contra uigures. Assim, apresentaram determinadas sanções como forma de protesto. A Nike, a Adidas e a H&M renunciaram servirem-se de algodão oriundo de Xinjiang no fabrico de vestuário, manifestando-se contra a alegada ameaça aos direitos humanos do povo uigur.

Dia após dia, a pressão de grandes companhias e de países a nível mundial tem-se intensificado, procurando-se evitar perpetuar uma aparente tragédia. Como tal, o corte de relações comerciais com a Região Autónoma de Xinjiang é visto como a grande estratégia de outros países em preservar a qualidade de vida da população chinesa uigur ou de qualquer outra etnia que venha a ser oprimida.


Imagem de Afonso Silva


 
 
 

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