Entrevista a Filipe Ribeiro- Jogador de Futebol
- Manuel Brito-Henriques

- 26 de out. de 2021
- 17 min de leitura
No passado dia 18 de outubro de 2021, conversei com Filipe Ribeiro, futebolista brasileiro que atua na Desportiva Ferroviária, clube do Estado de Espírito Santo. Com passagens pelo Sporting CP e Leixões, o médio-ofensivo aceitou, de forma bastante humilde e amigável, ser entrevistado via "Zoom". Nesta entrevista exclusiva, Filipe Ribeiro fala abertamente sobre as grandes diferenças entre o futebol europeu e sul-americano; justifica o sucesso dos treinadores portugueses no futebol brasileiro; conta como foi ter a oportunidade de jogar na Europa; explica o porquê de ter estado mais de um ano e meio sem pisar os relvados; e realça a importância do equilíbrio emocional e da saúde mental em momentos delicados da vida profissional e pessoal.
Manuel Brito Henriques- Antes de conversarmos sobre a tua vida enquanto jogador, gostaria de começar esta entrevista pegando em algo que, muitas vezes, gera bastante discussão entre portugueses e brasileiros, e, de um modo geral, entre europeus e sul-americanos. Frequentemente, o nível de qualidade e competitividade futebolística na América do Sul e na Europa é comparada. Tu, que já tiveste a oportunidade de vivenciar estas duas realidades, que posição defendes?
Filipe Ribeiro- Acho que não dá sequer para haver comparação. O futebol europeu tem muito mais qualidade e competitividade, o que é visível tanto a nível tático como ao nível da intensidade.
Aqui no Brasil, é costume nós brincarmos muito com essa situação. A Liga dos Campeões, para nós, é jogada por volta das 15h/16h. A seguir, já à noite, é disputado o campeonato brasileiro ou, até mesmo, a Taça dos Libertadores. Ou seja, num momento estamos a assistir, por exemplo, a um Paris Saint-Germain x Manchester City e, mais tarde, damos por nós a acompanhar um jogo entre Peñarol e Olimpia Asuncion...é complicado.
MBH- Talvez seja melhor fazer este paralelismo entre futebol português e futebol brasileiro, visto que, apesar de o campeonato português ser considerado o 5º melhor campeonato europeu, o Sporting, o Benfica ou o Porto não têm a mesma força de um PSG, Manchester City ou um Liverpool. Assim, quais consideras ser as principais diferenças entre o futebol português e o futebol brasileiro? Continuas a acreditar que o nível de competitividade é muito distinto?
FR- Sim, sem dúvida. Atrevo-me a dizer que o futebol português ainda não atingiu o nível das principais ligas europeias justamente devido ao facto de ter muitos jogadores brasileiros. Não estando, de todo, a desvalorizar os jogadores brasileiros, o que pretendo dizer é que Portugal é geralmente a primeira “casa” do jogador brasileiro na Europa, como aconteceu comigo. Fundamento esta minha ideia com o meu exemplo. Quando cheguei a Portugal, eu não sabia nada taticamente. Pensava que percebia de futebol, mas, quando fui para aí [Portugal], tive que aprender muitas coisas. Tive a sorte de, numa fase inicial, ter sido treinado por um treinador muito paciente e que me quis ajudar. Quando o jogador brasileiro se adapta ao futebol europeu- e temos a nosso favor a sorte de possuir um talento natural-, ele acaba por sair de Portugal, como é o caso do Raphinha, que se tem destacado, inclusive, na seleção brasileira.
Em suma, creio que a grande diferença entre o futebol brasileiro e o futebol português assenta justamente na intensidade e no padrão tático, já que em Portugal o jogo é muito mais estratégico.
MBH- Há pouco tempo, assistiu-se a um momento muito caricato aquando de um duelo entre Brasil e Argentina, no qual, passados 4 minutos desde o apito inicial, o árbitro deu o jogo por interrompido e, mais tarde, terminado, devido a questões de origem sanitária e política. Este acontecimento manchou muito o nome da CONMEBOL. A organização ficou muito mal vista. Sentes que este acontecimento pode suscitar nos europeus a ideia de que o futebol na América do Sul não tem o mesmo nível de profissionalismo e de rigor?
FR- Sinto, sim. Isto só manchou mais a imagem da CONMEBOL. A CONMEBOL já não era bem vista mesmo por nós [sul-americanos]. A desorganização da CONMEBOL não é novidade, havendo inúmeros exemplos em partidas da Taça dos Libertadores e da Taça Sul-Americana. É uma organização que deixa muito a desejar, o que já gera muita desconfiança em eventos de grande dimensão e importância. Todavia, a culpa, nesse caso em concreto, não é exclusivamente desta entidade. Há que culpabilizar também o Brasil pela forma como o Governo tem lidado com a situação pandémica, em especial com a confusão gerada em torno da quarentena obrigatória a quem vem de fora. Aqui, quem é famoso tem umas certas regalias e, provavelmente, foi isso que aconteceu com os jogadores argentinos. Porém, instituições sérias e competentes, como é o caso da Anvisa e da Polícia Federal, não querem saber se é jogo do Campeonato do Mundo ou de sub-12, dando-lhes o mesmo tratamento. A partir daí, foi o circo que vimos. Com toda a certeza, este acontecimento e tantos outros iguais a este mancham o nome do futebol sul-americano aí na Europa.
MBH- De que forma a política e a economia podem interferir no crescimento e reconhecimento do futebol brasileiro e, de um modo geral, do futebol na América latina?
FR- A política não tem tanta interferência, na minha opinião. Em relação à economia, a sua interferência- ou falta dela- é óbvia. A diferença de investimento entre o futebol europeu e o sul-americano é absurda. Contudo, com uma boa gestão e planeamento, e posso até dar o Flamengo como exemplo disso mesmo, é possível contornar esses problemas de caráter económico. O Flamengo fechou o ano com um lucro a rondar os mil milhões de reais. Tudo isso porque teve uma gestão organizada e bem trabalhada. É um projeto que pensa no sucesso a curto, médio e longo prazo. De recordar que este planeamento começou a ser feito aquando da contratação de Jorge Jesus, que construiu um grande plantel e, graças ao capital salvaguardado, conseguiram conservar muitos dos grandes jogadores da equipa, continuando com a sua base...e dá no que se tem visto. O Flamengo atropela todos aqui. É uma diferença muito grande entre o Flamengo e os outros clubes, ainda que o Atlético Mineiro esteja, neste momento, a dar passos largos rumo ao título de campeão brasileiro...
MBH- Já que mencionaste o Atlético Mineiro, gostaria de tocar num ponto que acho igualmente importante e que considero ser relevante para o panorama futebolístico do Brasil. É muito comum jogadores que tiveram uma carreira muito bem conseguida na Europa regressarem ao Brasil, e o Hulk, que neste momento tem brilhado ao serviço da equipa de Belo Horizonte, é exemplo disso mesmo. Isto leva a crer, pelo menos a quem vê de fora, que há algum dinheiro nos clubes brasileiros, aliciando, portanto, o retorno desses jogadores, não concordas?
FR- Eu acho que esse retorno significa, acima de tudo, a tal diferença competitiva entre o futebol Europeu e o futebol daqui. Os grandes jogadores, quando já estão numa idade avançada, quando já não conseguem render o que renderam outrora, retornam ao Brasil e jogam da forma e do modo que querem. O Hulk é mais uma amostra disso mesmo. Antes de rumar à China, chegou a fazer épocas surpreendentes na Europa, principalmente no Porto e, até mesmo, no Zenit. Isso fez com que chegasse a representar a seleção principal do Brasil, disputando, inclusivamente, um campeonato do mundo. Posso também referir o nome de Andreas Pereira, que foi vítima de sucessivos empréstimos, não se conseguindo afirmar. Aqui, no entanto, tem jogado com uma facilidade notória e a um nível completamente distinto daquilo que se passou na Europa. E é isto que comprova as diferenças entre estes dois “mundos” do futebol.
MBH- Acrescentaria às tuas amostras o nome de Gabigol, que não conseguiu ser valorizado no Inter de Milão e no Benfica, mas no Flamengo rebentou, sendo peça fundamental no “mengão”...
FR- Exatamente. Ele teve grande protagonismo nas últimas conquistas da equipa do Rio de Janeiro, e continua a ter. Mas, concluindo a minha teoria quanto à diferença de qualidade entre o futebol europeu e sul americano, vejo que Gabigol na seleção- onde tem de jogar contra formações mais evoluídas taticamente do que aquilo a que está acostumado- já não consegue render tanto.
MBH- Olhando para as competições sul-americanas (a Taça dos Libertadores e a Taça Sul-Americana), as finais das mesmas serão disputadas entre clubes brasileiros. Estando tu mais dentro dessa realidade, admites que o Brasil concentra o grande monopólio do futebol da América Latina, e que, como tal, isso pode contribuir para uma certa descredibilização do futebol no continente americano?
FR- Sim, admito. E até digo mais: o Brasileirão é a liga mais competitiva do continente americano. Se formos a ver, é muito difícil um clube ser bicampeão. Ontem, o Cuiabá empatou com o Flamengo. Uma equipa recém-promovida ao principal escalão do futebol brasileiro, que se estreia na Série A brasileira! Até agora, tem apenas 6 derrotas no campeonato brasileiro. Coincidentemente, 6 é também o número de derrotas do Flamengo até à data. Esse jogo frente ao Flamengo foi o primeiro jogo da história do Cuiabá no Maracanã, frente a um “super” Flamengo, e, mesmo assim, bateram-se muitíssimo bem. O Cuiabá está a surpreender muita gente, já que muitos apontavam para um regresso do clube à série B.
Tudo isto para dizer que este é um campeonato muito disputado e muito competitivo. Isso faz com que os clubes tenham de se tentar superar a níveis muito elevados, acabando por promover a presença de clubes brasileiros na reta final das provas mais reputadas da América do Sul, dominando-as. À semelhança do que acontece no presente ano, no ano passado, a final da Libertadores pôs frente a frente Palmeiras e Santos. Este ano, já há a certeza de que a Libertadores e a própria Taça Sul-Americana serão ganhas por um clube brasileiro. Resta-nos apenas saber quem serão ao certo as equipas vencedoras destes torneios.
MBH- Nos últimos anos, os treinadores portugueses, nomeadamente Jorge Jesus e Abel Ferreira, têm sido autênticos fenómenos no Brasil. Apesar de já não se encontrar aí, António Oliveira, filho da lenda benfiquista Toni, deixou a sua marca no futebol brasileiro, dado ter comando o Athletico Paranaense às meias-finais da Taça Sul-Americana, ainda que a “inscrição” do clube na final dessa prova foi conseguida por Paulo Autuori. Encontras alguma explicação para o sucesso português no seio do futebol brasileiro?
FR- Recentemente, vi umas declarações do [Jorge] Jesus após o jogo frente ao Barcelona, e ele falou justamente sobre o Flamengo. Numa das intervenções, ele disse: “Quando cheguei ao brasil, os jogadores do Flamengo não sabiam jogar sem bola. E o resto é história. O que vocês viram é o que aconteceu”. E eu concordo inteiramente com o Jesus. Como eu já disse, o brasileiro nasce com talento natural, mas nós não temos tanta formação tática, o que talvez até é um problema que trazemos das camadas jovens. Então, quando chegamos ao escalão sénior e profissional, estamos muito crus, daí haver uma dificuldade tão grande em adaptarmo-nos na Europa. No meu caso foi assim. O Abel e o Jorge Jesus vieram mudar isso. Ensinaram os jogadores das respetivas equipas a compreender o jogo, marcando logo uma grande diferença para os rivais.
MBH- O futebol brasileiro é muito conhecido pelo estilo de “futebol de rua”, um pouco a imagem de marca de Ronaldinho, de Neymar, Vinícius Jr. , entre outros. De facto, sempre surpreenderam pela qualidade técnica.
FR- Exatamente. A nossa escola é muito técnica, não é tática. Contudo, acho que isso está a começar a mudar, muito por causa da seleção brasileira, maioritariamente composta por jogadores que atuam nas principais ligas europeias, e que, por essa razão, trazem, aliado à qualidade técnica, qualidade tática.
MBH- Que tipo de medidas, na tua opinião, poderiam ajudar a promover o futebol fora da Europa?
FR- As medidas teriam de partir de baixo, dos escalões mais jovens. Ensinar-lhes, desde cedo, os padrões táticos. Isso deve ser incutido nos jovens entre os 13 e os 15 anos, de modo que a partir dos 17 anos já possam competir ao mais alto nível. Perceber o jogo é algo que leva bastante tempo, e há muitos talentos que se perdem devido ao facto de esta aprendizagem começar numa altura tardia da vida do atleta. Quando se chega a um nível muito alto, o importante é ganhar jogos, não havendo tempo para começar a perceber o futebol. Isso deve ter início vários anos antes, numa altura em que as vitórias não são tudo, sendo a formação enquanto jogador a verdadeira prioridade. A solução é, resumindo, focar na categoria de base.
MBH- Virando a página, e focando-nos mais na tua vida profissional, começo por enumerar os diversos clubes por onde passaste: o Audax Rio, o Feirense (Bahia), o Paulista, o Sergipe, o Sporting CP, o Leixões, o Moto Club, a Juventude-MA e a Desportiva Ferroviária, clube onde jogas atualmente.
Qual destes clubes foi o que mais te marcou? Por que razão?
FR- Há dois clubes que me marcaram muito. É impossível não colocar o Sporting como o principal clube da minha vida. Estar no Sporting foi a realização de vários sonhos- jogar na Europa, jogar num grande clube da Europa, de trabalhar com grandes nomes, nomeadamente o Jorge Jesus, que era, nessa altura, o treinador da equipa principal do Sporting. Curiosamente, e a propósito de ter trabalhado com pessoas muito competentes, ainda hoje estava a ver o jogo do Bétis, e o William Carvalho estava a jogar. Não tenho palavras para qualificar o quão bem ele joga. É uma classe, uma calma, uma fineza...absurdo. Paro o que estou a fazer só para o ver jogar.
Tudo o que sempre almejei, um só clube conseguiu-me oferecer. Esse clube foi o Sporting.
O outro clube que deixou também uma marca muitíssimo especial em mim é o Sergipe. Foi o clube onde senti que estive a um melhor nível, onde fiz mais golos, mais assistências, onde tive as minhas melhores prestações e o clube que me abriu a porta para a Europa. Guardo um carinho imenso pelo Sergipe.
MBH- Assumes que vir para Lisboa para jogares no Sporting foi o maior salto na tua carreira, apesar de, se calhar, a afirmação não ter sido a melhor?
FR- Foi o maior salto na minha carreira a todos os níveis. Imagina alguém que veio de uma família humilde, de um bairro humilde, que está a jogar no Sergipe, um clube desconhecido nacionalmente e internacionalmente, e, passados 4 ou 5 meses, esse alguém está num dos maiores clubes de Portugal e da Europa. O Sporting estava a disputar a Liga dos Campeões e tinha um plantel recheado de jogadores internacionais pelas respetivas seleções. Nem nos meus melhores sonhos imaginava que isso pudesse acontecer num tão curto espaço de tempo. Foi surreal!
MBH- Em que circunstância soubeste que estavas prestes a rumar à Europa? Como reagiste?
FR- Quando estava no Sergipe, comecei a ser procurado por empresários de grande renome no Brasil e no mundo. Esses mesmos empresários começaram a cuidar da minha carreira. Numa primeira instância, e tendo acabado contrato com o Sergipe, estive em negociações com um clube brasileiro, que militava na Série B. Era uma proposta financeiramente muito boa para mim. Mas, do nada, tudo mudou. Os tais agentes ligaram-me e perguntaram: “Como está o teu passaporte?”. Eu respondi: “O meu passaporte expirou no ano passado”. Eles disseram: “Trata disso com urgência porque estamos a ver de uma situação em Portugal”. Tirei o meu passaporte e chegou uma proposta do Marítimo. Deu tudo certo. Assinei e viajei para a Ilha da Madeira. Fiquei apenas 15 dias na Madeira, pois, após um jogo em que me destaquei, um senhor ligado ao Sporting contactou o meu empresário. Um dia depois, o meu empresário ligou-me e disse: “Houve pessoal do Sporting que me ligou e afirmou precisarem de um jogador com as tuas caraterísticas para a equipa B deles. O que achas?”. Eu limitei-me a responder: “Não tenho que pensar duas vezes. Quero jogar no Sporting”. Três dias depois, estava a caminho de Lisboa, de modo a representar o Sporting CP. Curiosamente, era para viajar no mesmo dia, mas, como sabes, na Ilha da Madeira nem sempre é fácil sair do aeroporto devido ao mau tempo. Estávamos numa altura do ano em que o vento era muito forte, não permitindo aos aviões descolar nem aterrar. Fiquei três dias no aeroporto, não conseguia sair de lá e o meu empresário estava desesperado, dizendo: “Precisas de estar lá na segunda-feira! Senão, eles vão ficar furiosos”. Eu limitei-me a perguntar ironicamente: “Mas o que é que eu posso fazer? É para ir a nadar?”. Nessa semana saiu apenas um avião, e, para minha sorte, era o avião onde ia embarcar. A partir daí, cheguei a Lisboa, assinei e tudo se desenrolou bem.
MBH- Após essa tua passagem discreta pelo Sporting, muito devido ao facto de a equipa B ter descido de divisão e, posteriormente, ter sido extinta, rumaste a mais um clube histórico de Portugal, o Leixões. Que memórias trazes de Matosinhos e como avalias a tua passagem pelo clube nortenho?
FR- Essa foi também uma experiência bastante boa. A adaptação foi mais fácil do que no Sporting. Quando rumei ao Leixões, havia 7 brasileiros. Receberam-me e integraram-me muito bem. No entanto, foi muito complicado ter oportunidades e somar minutos dado ter chegado a meio da temporada. A somar a esse fator, havia dois na minha posição. Um deles era o capitão de equipa, o Luís, que estava lá há muito tempo e era um belíssimo jogador. O outro estava a destacar-se. Por essas razões, foi muito difícil arranjar espaço e tempo de jogo. Volta e meia entrava, somava alguns minutos, porém não conseguia manter consistência. Coletivamente foi uma passagem positiva, tendo o clube superado as expectativas e senti sempre o calor da massa adepta. Esse apoio foi fundamental para que, na segunda volta do campeonato, perdêssemos apenas um jogo em nossa casa, contra o Paços de Ferreira, que, nesse mesmo ano, subiu de divisão. Pelo contrário, individualmente não foi tão bom.
MBH- Aquando da tua saída do Leixões, surgiu uma lesão que te pôs fora dos relvados durante um largo período de tempo. Como surgiu esse infortúnio?
FR- Não foi uma lesão. Na verdade, tive um problema no sangue. Uma doença reumática muito rara, a síndrome de Reiter, que ataca as articulações e gera grandes inchaços. No Brasil, onde habitam cerca de 200 milhões de pessoas, há apenas 15 mil casos por ano. Fui completamente apanhado de surpresa.
Estava prestes a começar a jogar na Ásia, logo após sair do Leixões. Cheguei, inclusivamente, a viajar, mas, passadas cerca de 2 semanas, comecei a sentir o joelho direito a inchar. Com a ajuda de medicamentos e de uma injeção, melhorei no mesmo dia. Ainda assim, a tal dor e inchaço fizeram-se sentir também no tornozelo esquerdo, e, depois de ver que não recuperava, voltei para o Brasil. Fiquei à volta de 9 meses sem conseguir andar, com o tornozelo completamente inchado. O processo foi muito demoroso, porque, quando voltei a andar, precisei, numa primeira fase, do auxílio de muletas. O tratamento assentava na toma de medicamentos, não havia mais nada que pudesse fazer. Restava-me esperar que o inchaço passasse.
A pandemia fez parar o futebol, o que, de certa forma, me ajudou. Se isso não tivesse acontecido, eu talvez tivesse ficado muito para trás, sem conseguir acompanhar o crescimento da competição. Se o futebol não tivesse parado, não sei onde estaria a jogar agora. Em janeiro deste ano, o pé já estava totalmente desinchado, consegui voltar a treinar, voltar à minha forma física ideal, ao meu peso ideal, e, felizmente, voltei a jogar profissionalmente. Como estive praticamente um ano inteiro sem sequer andar, o processo enquanto jogador teve de recomeçar praticamente do zero.
MBH- Imaginavas que um dia terias de dar um passo tão atrás na tua carreira? Recordar que passaste de estar a jogar na Europa para, num abrir e fechar de olhos, estares na situação que explicaste. Como é que lidaste com esta ocasião? Houve momentos de maior pressão e ansiedade ou, pelo contrário, mantiveste sempre uma perspetiva positiva sobre os acontecimentos?
FR- Foi muitíssimo complicado. Como já referi, a minha ascensão foi muito rápida e, portanto, quando algo parece estar tão bem encaminhado, fazemos sempre prognósticos positivos. Ter de voltar para casa, saber que teria de estar 1 ano fora dos relvados e sem clube é bastante impactante na carreira de um jogador, ainda para mais um jogador que ainda não é muito conhecido. Comecei a questionar-me sobre mil e uma coisas, a desconfiança era muita. Ainda assim, não tive grandes problemas. Não fiquei deprimido. Estava em casa, no Brasil, com a minha família, com as pessoas que me apoiam. A minha namorada foi o meu alicerce. Em nenhum momento pensei em desistir. Pensava nas dificuldades do recomeço, mas tinha consciência de que existiria um recomeço.
MBH- Referiste o grande suporte da tua namorada nesta fase mais sombria da tua vida. Numa altura em que cada vez mais se fala de toda a pressão a que os atletas estão sujeitos e na saúde mental, tendo como exemplo a jogadora de ténis Naomi Osaka, a ginasta Simone Biles e os futebolistas Neymar e Troy Deeney, neste período necessitaste de acompanhamento psicológico?
FR- Teria sido muito bom se tivesse tido acompanhamento psicológico e essa ajuda seria bem-vinda. Não obstante, consegui manter o discernimento e o equilíbrio muito por causa da minha família. O laço familiar ajudou-me imenso. Tenho um irmão de seis anos, o Rafa. Perdi muito do crescimento dele, as primeiras ações, as primeiras palavras, as primeiras danças, porque estava a correr atrás do meu sonho. Estando junto da minha família, passei muito tempo com o meu irmão, o tempo que não lhe tinha dado. Durante esse período, ele, pela primeira vez, disse que me amava. Valorizando estas coisas, é muito mais fácil ultrapassarmos situações complexas. Há sempre consequências positivas. Sempre soube lidar muito bem com a pressão, mesmo em que jogos com muita gente a assistir, e acho que isso foi fundamental para que eu conseguisse superar todas as adversidades. Naturalmente, não voltei a jogar com a mesma autoconfiança de antes. Contudo, tenho procurado obtê-la jogo após jogo.
MBH- Passando agora para assuntos mais felizes e atuais, falemos do teu regresso ao futebol. Neste curto espaço de tempo, já passaste pelo Moto Club, um clube com graves problemas estruturais, e pela Juventude-MA. Entretanto, tens tido reais oportunidades para mostrares as tuas qualidades futebolísticas. Como tal, numa recente intervenção no programa ‘Show de Esporte’, assumiste que a adaptação na Desportiva Ferroviária tem sido bastante positiva. Crês que a união do plantel tem sido fundamental para o teu sucesso, mesmo com a recente demissão do treinador Leonardo Samaja?
FR- Sim, acho que a união do grupo é o mais importante. O Sergipe, como já disse, foi o clube em que me senti a jogar o meu melhor futebol. Muito disso deveu-se ao grupo incrível com o qual tive o prazer de jogar e conviver. Um grupo que me prestou muito auxílio. Aqui na Desportiva as coisas dentro de campo têm corrido bem muito por causa disso. Ainda há muita coisa para encaixar e estamos longe de estar a jogar o ideal. O plantel é muito diferente daquele que integrei no Sergipe, já que, ao contrário desse, o nosso grupo na Desportiva é muito jovem, notando parecenças com o Sporting B. Ainda assim, como já afirmei, a união que nós temos é muito grande e tem favorecido em larga escala as minhas prestações. Tinha muitas saudades da rotina, do dia-a-dia em equipa e das brincadeiras de balneário. Não menosprezando o fantástico papel dos meus colegas de equipa, acredito que o principal motor para estar confiante nas minhas capacidades foi o treinador Leo, que, como disseste, foi embora. Desde o primeiro dia conversou comigo, abraçou-me e reacendeu em mim a vontade de jogar futebol. É um homem a quem sou muito grato e ele sabe disso. Mesmo depois da saída dele, continuamos a falar. Foi uma saída que nós, enquanto grupo, sentimos muito. Infelizmente, são coisas que fazem parte do futebol. Não me vou esquecer que foi com o Leo que voltei, um ano e meio depois, a atuar 90 minutos.
MBH- Nos quatro jogos que já realizaste ao serviço da equipa do Estado de Espírito Santo, marcaste 2 golos e fizeste uma assistência. Qual foi a sensação de passados mais de 2 anos teres feito o gosto ao pé?
FR- Fazia muito tempo que já não conhecia essa sensação. O primeiro golo que marquei neste regresso processou-se da seguinte forma:
Estava a suplente e entrei no momento em que sofremos uma falta junto à área adversária. Fui eu quem bateu o livre. Fiz golo de livre direto.
Acima de tudo, senti uma grande nostalgia, um déjà vu. Concentrei nesse golo todas as sensações que tive no Sergipe, no Sporting, no Leixões...agora já tem sido mais natural, quase como se fosse viciante. É excelente fazer um golo, ver os adeptos a celebrarem e, mais tarde, ir ao telemóvel e ver as mensagens dos meus familiares e amigos. Isso não tem preço e é único.
MBH- Apesar de teres iniciado carreira sénior há 6 anos, ainda só tens 49 jogos efetuados em toda a tua vida como jogador de futebol. Estás confiante de que agora vais finalmente derrotar os fantasmas que te têm atormentado?
FR- Eu treino essa confiança e preciso de a ter. Costumo dizer a um grande amigo meu que esta é a minha última oportunidade. Graças a Deus, tem tudo corrido bem desde o meu regresso. Tenho feito golos, assistências e exibições de boa qualidade, apesar de estar longe do meu melhor. Dentro das limitações, creio que tenho cumprido com o meu dever. Tenho muita fé e positividade. Agora é dar continuidade a este bom início.
MBH- Para finalizar, que conselhos dás aqueles que, tal como tu, têm visto, recentemente, os seus sonhos serem retardados por diversos obstáculos que a vida cria?
FR- O conselho que dou é o conselho mais clichê que existe. É o de nunca desistir, ser trabalhador, correr atrás do sonho. Não sabemos o dia de amanhã, mas, como já contei, num momento estava no Sergipe, um clube que desconhecido para a maioria das pessoas, e, quatro meses depois, estou num dos maiores clubes da Europa, estou no Sporting Clube de Portugal. Meros 120 dias depois.
O futebol e a vida têm destas coisas. São montanhas-russas, principalmente o futebol. Um dia estamos em baixo, no outro estamos em cima. O que nunca se pode alterar é a nossa essência. Temos de continuar a ser a mesma pessoa. Eu procurei ser sempre o mesmo, estando no Sporting ou na Desportiva Ferroviária. Isso nunca vai mudar, mesmo que amanhã integre o plantel do Liverpool. O trabalho, o esforço, a humildade e a crença serão sempre iguais.
Isto é transversal a todas as áreas da vida!




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