A negação que virou "verdade"
- Manuel Brito-Henriques

- 15 de nov. de 2020
- 3 min de leitura
No passado dia 12 de novembro, a TVI, pela autoria do jornalista André Carvalho Ramos, deu a conhecer o grupo “Médicos pela Verdade”, onde estão inseridos psicólogos, enfermeiros, médicos e dentistas e que trabalha em conjunto com o grupo “Jornalistas pela Verdade”, liderado por Sérgio Tavares, sujeito sem carteira de jornalista que, no entanto, garante a existência de jornalistas credenciados nesse grupo, os quais terão optado por não dar a cara, de forma a evitar qualquer problema no órgão de comunicação social onde trabalham. Estes grupos têm como objetivo “mostrar o lado da pandemia que os órgãos de comunicação social não mostram” e “o exagero dos meios de comunicação social que insistem em realçar constantemente números cumulativos que não correspondem à realidade atual e que só servem para alimentar o medo e o pânico na população”, tal como é visível na página dos “Jornalistas pela Verdade” e no manifesto dos “Médicos pela Verdade”.
A reportagem já referida contou com a presença de Sérgio Tavares e da Dra. Margarida Gomes de Oliveira, os principais elementos de cada um dos grupos. Foi visível a discrepância e contradições no discurso de todos os intervenientes, com inúmeras autocorreções. A reportagem procurou refutar as teorias nas quais estes grupos se baseiam, desde as fontes sem qualquer credibilidade, ou inexistência dessas, passando pela teoria de que a máscara não protege e acabando na crença de que a Covid-19 é menos perigosa do que a gripe, tendo a TVI apresentado um gráfico que comprova que no dia 1 de novembro de 2020 haviam sido registados 378 casos com o novo coronavírus nos cuidados intensivos, enquanto que a 1 de novembro de 2019 só foi registado 1 caso com gripe nos cuidados intensivos. Para além disso, constatou-se que o grupo não era frequentado por qualquer epidemiologista, virologista ou médico de saúde pública, os quais seriam, em princípio, aqueles que mais conhecimento teriam sobre este tema.
O principal motivo de toda a contestação em torno da pandemia prende-se no facto de, segundo os cabecilhas destas organizações, a forma como se lida com a situação pandémica poder ser opcional, já que qualquer pessoa “é livre de cumprir ou não”, mesmo reconhecendo que se “sobrecarregam os hospitais”. De forma a justificar este argumento, a Dra. Margarida Gomes de Oliveira compara aqueles que optam por não cumprir as regras de prevenção à Covid-19 com os fumadores, uma vez que “há uns que têm cancro de pulmão”, mas têm a legitimidade para “escolher como querem morrer”. Ademais desta, também uma comparação foi feita com os métodos contracetivos. A médica já mencionada procurou comparar a contração de HIV, transmitido através das relações sexuais, e a Covid-19. Porém, em ambos os casos a transmissão das doenças é feita sem qualquer tipo de proteção, no caso de se evitar transmitir HIV recorre-se ao uso de preservativo, tal como o uso da máscara e o cumprimento do distanciamento social são medidas que procuram evitar a transmissão do coronavírus.
A reportagem realizada por André Carvalho Ramos surge numa altura em que os “Médicos pela Verdade” têm obtido cada vez mais simpatizantes e apoiantes, contando-se algumas manifestações que se têm vindo a realizar nos últimos meses. Para os “Médicos pela Verdade”, os desacatos “anti-pandemia” que se têm verificado em alguns países europeus, nomeadamente em Espanha e em França, constituem um aviso ao Governo Português. A tensão vivida nestes últimos meses ao nível da vida pessoal e profissional de cada cidadão, tanto português como de qualquer outro país, tem despoletado este tipo de iniciativas radicais e negacionistas, apoiadas por alguns chefes de Estado.
Imagem de Afonso Silva





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