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Encontradas 90 mil toneladas de urânio na Arábia Saudita

  • Foto do escritor: Manuel Brito-Henriques
    Manuel Brito-Henriques
  • 21 de set. de 2020
  • 3 min de leitura

No dia 17 de setembro de 2020, o “The Guardian”, prestigiado jornal britânico, deu a conhecer ao mundo a descoberta de urânio, em grande quantidade, por parte da Arábia Saudita, capaz de tornar o país autossuficiente no que à produção de energia nuclear diz respeito. De acordo com as informações tornadas públicas pelo mesmo jornal, terão sido identificadas reservas capazes de produzir mais de 90 mil toneladas de urânio em três depósitos localizados na região central e noroeste do país. Esta exploração contou com a colaboração de geólogos chineses, pertencentes à “Beijing Research Institute of Uranium Geology” (BRIUG), instituto chinês que tem como função “identificar localizações de minas de urânio e armazenamentos de lixo nuclear”, para além de conduzirem “investigações em laboratórios de análise”. O mesmo instituto foi responsável por “explorações no Irão e Paquistão”, ademais de em 1990 ter “realizado prospeção de urânio no Irão”, estimulando a República Islâmica a apostar na extração deste material, através de dados presentes no site da organização não-governamental “Nuclear Threat Initiative” (NTI). A “China National Nuclear Corporation” (CNNC) também prestou auxílio ao “Saudi Geological Survey”, com o intuito de encontrar compradores para instalações nucleares chinesas.

Apesar desta intenção do príncipe Mohammad bin Salman, inúmeros fatores constituem uma certa contradição e preocupação. A contradição reside no facto de o país saudita ter assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Esse tratado existente desde 1968, que só entrou em vigor em 1970, conta com a adesão de 189 países, sendo que a Arábia Saudita consta nessa lista. O acordo começou por ter como principal objetivo a não utilização de armas nucleares e a limitação a 5 países que reconheciam ter este tipo de armamento na sua posse. China, França, Rússia, Reino Unido e EUA são os 5 países que constam nessa lista. Como tal, foi-lhes proibida a transferência destes materiais para outros países e a partilha dos conhecimentos tecnológicos no que a esta matéria diz respeito. Contudo, neste grupo não estão presentes países como Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte, países esses que, ao que tudo indica, possuem armas nucleares. Apesar de tudo, o tratado permite, aos estados-membros, o desenvolvimento da energia nuclear, caso não ponham em risco as diversas civilizações, além de necessitarem da monitorização da Agência Internacional de Energia Atómica. A grande preocupação surge perante as declarações de Mohammad bin Salman, há 2 anos, onde o mesmo afirmou que, caso o Irão começasse a desenvolver uma bomba nuclear, a Arábia Saudita seguiria o processo “o mais rápido possível”, devido às rivalidade e desavenças entre estes 2 países.

Outra das situações que contradiz esta procura da Arábia Saudita em produzir energia nuclear é o papel intervencionista na existência de uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente. A proposta aceite pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), em 2007, exigia que em determinados locais desta região, os países não pudessem desenvolver, testar, fabricar, adquirir ou armazenar tais armas, a qual foi contestada por Israel. Em novembro de 2019, a criação de uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente foi novamente discutida, desta feita pela ONU, em Nova Iorque. António Guterres, secretário-geral da ONU, mostrou-se a favor desta medida. Guterres acredita que esta medida “coloca um fim permanente à possibilidade de conflito nuclear em determinada região”, sublinhando que “a situação continua a constituir uma séria preocupação para todo o mundo”.

Em 2017, na Arábia Saudita surgiu a prioridade de se investir na energia nuclear. Segundo Hashim bin Abdullah Yamani, homem destacado para coordenar o portfólio dos planos nucleares, o objetivo dos sauditas aquando da exploração de urânio passava pela riqueza a nível económico e apenas para “fins pacíficos”, com o objetivo de diversificar o abastecimento de energia por ser “economicamente eficiente”. Todavia, a Arábia Saudita é um país acusado de financiar o autoproclamado Estado Islâmico, gerando desconfiança quanto à veracidade das declarações do responsável por este portfólio.

Numa fase inicial é expectável que o pânico seja grande. A nível mundial espera-se que, de facto, a utilização do urânio seja apenas para fins pacíficos. A desconfiança é grande, devido às declarações já citadas e às suspeitas de financiamento a um grupo extremista. Só o futuro saberá o impacto que toneladas de determinado elemento químico poderá ter no bem-estar das civilizações mundiais.

Imagem de Afonso Silva

 
 
 

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