top of page

Figura da semana #2

  • Foto do escritor: Manuel Brito-Henriques
    Manuel Brito-Henriques
  • 10 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

A última semana ficou marcada pelas grandes explosões que ocorreram no porto de Beirute, capital do Líbano. A cidade libanesa tem cerca de 2 milhões de habitantes, sendo que a explosão não só fez abalar todas as outras cidades do país, como acabou por dar fim à vida de mais de uma centena de pessoas, desalojou mais de 300 mil indivíduos, 5 mil ficaram feridos e mais de uma centena continuam desaparecidos, informação atualizada aquando da realização deste artigo. O número de mortes irá, com toda a certeza, crescer. Alguns meios de comunicação e especialistas anunciaram que a explosão verificada em Beirute, apesar dos enormes estragos que causou, teve apenas 10% da força da bomba de Hiroshima.

A origem da explosão é, até ao momento, misteriosa e ainda com muito para descobrir. Ao que parece, as explosões no porto de Beirute terão tido origem a partir de nitrato de amónio localizado no armazém 12 desse mesmo porto. Esse armazém terá sido atingido por um incêndio que se iniciou na área envolvente e que, em contacto com as toneladas de material explosivo, vitimou, de forma direta e indireta, milhares de pessoas. A existência de 2750 toneladas de nitrato de amónio nestes armazéns tem como explicação uma história que indigna e desperta a curiosidade da população libanesa. A partir de informação explícita no “Jornal de Notícias”, as respostas foram dadas, embora prevaleça na cabeça de muitos um ponto de interrogação que os faz questionar de toda a história. Segundo informações recolhidas, o navio MV Rhosus, que partiu de Batumi (Geórgia), em setembro de 2013, e que tinha como destino a Beira (Moçambique), teria sido apreendido em Beirute, havendo diversas explicações para legitimar tal ação judicial. O navio pertencia à Teto Shipping, empresa (falida) do russo Igor Grechushkin, pese embora estivesse presente, no navio, a bandeira moldava. O navio foi abastecido na Grécia e Turquia, havendo dois cenários possíveis. No primeiro desses cenários, como noticiado pela CNN, o empresário russo terá ordenado aumentar a carga em Beirute, dado que a empresa atravessava um período de falência técnica e o aumento da carga tornaria a viagem mais rentável, podendo ser comercializado um maior número de materiais. No segundo cenário, como referido pelos advogados dos marinheiros, o navio terá sido abandonado em Beirute devido a “dificuldades técnicas”. Um mês após ter abandonado a Georgia, o navio atracou na capital libanesa e os marinheiros, russos e ucranianos, queixavam-se de ter salários em atraso. O MV Rhosus foi dado como abandonado em junho de 2014, e devido à carga aí presente diversas cartas foram escritas a juízes, como forma de demonstrarem o perigo a que poderiam estar sujeitos, sendo que em novembro desse ano, o nitrato de amónio foi guardado no armazém anteriormente referido e que se encontrava ao lado de um armazém onde estava guardado fogo de artifício que, à semelhança do armazém 12, contribuiu para a ocorrência deste fenómeno, como mencionado pelo ministro da saúde do Líbano. Já em 2017 foi sugerido pelo diretor-geral das alfândegas que, mediante as condições de alerta, o nitrato de amónio fosse vendido ao exército libanês, algo que não se verificou e que podia ter evitado este trágico acontecimento. Os membros da administração portuária estão em prisão domiciliária, acusados de negligência. Os administradores não concordam com as acusações, mencionando que a descarga destes produtos para o armazém foi feita a partir de uma ordem judicial, não lhes sendo permitido recusar a tal ordem.

A explosão teve, naturalmente, impacto na vida das pessoas. Diversos casos foram comentados, desde a noiva que durante uma sucessão fotográfica foi projetada pela explosão, até ao parto realizado segundos após este acontecimento, com tudo em volta completamente destruído, utilizando-se a lanterna dos telemóveis dos intervenientes, já que a eletricidade foi abaixo. Naturalmente, muitos comentaram e elogiaram o papel de extremo profissionalismo por parte dos médicos e enfermeiros.

Não obstante, a figura da semana vai para uma outra enfermeira. Uma enfermeira que, com toda a frieza e coragem, salvou 3 recém-nascidos, imagem captada pelo fotógrafo Bilal Marie Jawich que se mostrou impressionado com “a calma dela, a contrastar com a atmosfera de caos à volta, a apenas um metro de distância”. A enfermeira terá desmaiado após as explosões e, mal acordou, pegou os 3 recém-nascidos ao colo, salvando-as de uma morte quase inevitável, à semelhança do que aconteceu com tantos outros na capital libanesa. É de louvar o profissionalismo e instinto maternal demonstrado por esta enfermeira que evitou mais 3 vítimas mortais, estas ainda muito novas e com uma vida pela frente.

Imagem de Afonso Silva

 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post
bottom of page