O drama em Hong Kong
- Manuel Brito-Henriques

- 13 de jul. de 2020
- 5 min de leitura
Hong Kong vive nos dias de hoje momentos de extrema violência. À semelhança de Macau, Hong Kong é uma região administrativa especial da República Popular da China que funciona como uma cidade-estado, dado que tem uma legislação e um parlamento diferentes das restantes regiões chinesas, tendo apenas influência direta da China na escolha do governador, que é nomeado por Pequim. Aquando da devolução de Hong Kong por parte da Grã-Bretanha, a 1 de julho de 1997, foi acordado que durante 50 anos, a partir da Lei Básica, dar-se-ia a fórmula “um país, dois sistemas”, a qual lhe permitiria ter uma total independência do país chinês, exceto nas áreas de defesa e de política externa.
Como sabido, a China é controlada por um regime ditatorial comunista, o qual na teoria, não afetaria nenhuma das regiões especiais. Contudo, ainda em 2019, uma onda de protestos teve início em Hong Kong e tem-se estendido aos dias de hoje. Em causa está um controverso projeto-lei que tinha como objetivo a extradição de suspeitos de crimes para Pequim, proporcionando à China um maior controlo sobre Hong Kong, o que deixou a população claramente perturbada, para além de existir o receio de serem julgadas injustamente, conhecendo muito bem os moldes como funciona o regime chinês, que como qualquer ditadura, recorre à censura e à violência de quem se considerar estar a atentar contra os ideais do regime. Os meses foram passando, com inúmeros civis a saírem gravemente feridos dos confrontos com as forças policiais.
O caso mais grave deu-se a 1 de outubro de 2019, dia em que se celebravam os 70 anos de governo do Partido Comunista. A força policial acabou por balear um jovem, o que impulsionou uma maior violência dos manifestantes para com a polícia, atingindo-a com diversos objetos. Após esse dia, o governo chinês proibiu o uso de máscaras por parte dos manifestantes, de forma a que estes fossem facilmente identificados. A juntar a estes grandes desacatos, deu-se em novembro o esfaqueamento a um deputado pró-Pequim, para além de que pouco tempo depois, um polícia acabou por balear outro manifestante, e nesse mesmo dia, foi ateado fogo num homem pró-Pequim. Todos estes incidentes, são prova viva de todo o clima intenso de guerra e de ódio que se tem vivido em Hong Kong.
Estas divergências entre Hong Kong e China já vêm desde há muito tempo. Aliás, a população de Hong Kong não se assume sequer como chinesa. Já em 2014, a polícia acabou por dar fim a um protesto pró-democracia, o qual mostra mais uma vez, a censura a que o regime sujeita os seus habitantes, mesmo numa região onde supostamente, há pouco controlo. Outro exemplo dessa censura passa pela desqualificação de legisladores pró-democracia ou até mesmo pelo desaparecimento de cinco livreiros, sendo que três deles estavam sob a custódia da polícia de Guangdong e a ser investigados na China Continental.
Carrie Lam, governadora de Hong Kong é também olhada de lado por parte da população dessa região, tendo sido pedida a sua renúncia. Os habitantes consideram-na uma “marioneta” do presidente chinês, Xi Jinping, que numa demonstração de abuso de poder, ameaçou os pró-democracia de que caso estes se continuassem a manifestar haveria “corpos esmagados e ossos partidos”. O desejo dos habitantes desta região administrativa especial era que estas manifestações não fossem caraterizadas como “motins” e dessa forma, não haveria qualquer legitimidade para a existência de manifestantes presos. Exigiam mais tolerância por parte da polícia e a implementação de um sufrágio universal, mas a prioridade seria acabar com o projeto-lei proposto sobre o julgamento de cidadãos de Hong Kong em Pequim, o que acabou por ser aceite, embora tivesse havido nova tentativa em fevereiro deste ano, mas o debate da proposta dessa lei acabou por ser suspenso. Contudo, os protestos continuaram, dado que esse era somente mais um problema que os cidadãos de Hong Kong procuravam resolver.
A 4 de junho de 2020, deram-se os 31 anos do Massacre de Tiananmen, que foi uma demonstração clara da violência a que o regime ditatorial comunista submetia a sua população pró-democracia, que se limitava a caminhar pacificamente pelas ruas de Pequim como forma de protesto contra um regime que consideravam repressivo e corrupto, e para os trabalhadores o desemprego era uma realidade. Nesse dia, foi aprovada uma lei que condena até três anos de cadeia qualquer pessoa que ousasse ofender o hino da República Popular da China, algo que foi visto por parte dos habitantes de Hong Kong como sinal de provocação e censura porque quando a seleção de Hong Kong joga, o hino nacional chinês é alvo de insultos.
Já no final do mês de junho, o presidente Xi Jinping promulgou uma lei de segurança, ignorando o Conselho Legislativo de Hong Kong e esse projeto-lei foi ratificado pelo Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, a qual constitui uma afronta para aquela que foi a Lei Básica, que defendia a quase total independência de Hong Kong, incluindo a do poder legislativo. A lei de segurança visa punir qualquer atentado ao poder através de tentativas de desunião, terrorismo ou de revoluções, o que contou com o apoio da governadora Carrie Lam, que pede para que os protestantes não infrinjam a lei pois “as consequências de a violar são muito graves”. Os livros escolares que possam conter qualquer uma das infrações, devem ser retirados após serem analisados pelos diretores e professores, sendo que Joshua Wong e Tanya Chan, ambos pró-democracia, verão os seus textos serem alvos de censura.
Após a entrada em vigor da nova lei de segurança nacional, os manifestantes pró-democracia continuaram a sua luta, desta feita com cartazes em...branco. Circularam fotografias que mostram esse protesto após as restrições impostas pelo governo, e que pretendem passar a mensagem de que os cidadãos se mostram receosos quanto à (in)existência de liberdade de expressão e o papel em branco é representativo também de uma expressão chinesa, conhecida como “terror branco”, que simboliza as perseguições políticas. Os manifestantes referiram que irão começar a utilizar expressões que tentem passar uma mensagem idêntica àquelas que foram banidas, mas ditas de outra forma, para que não sejam vistas como “revolucionárias”.
Por último, o Facebook, Whatsapp, Instagram, Google e Twitter, suspenderam a entrega de dados dos utilizadores que residam em Hong Kong às autoridades dessa mesma região administrativa, até que entendam ao certo que represálias pode ter a nova lei para com as pessoas que aí habitam, visto que defendem incessantemente o direito à liberdade de expressão, sem pretenderem de modo algum comprometer a liberdade de muita gente. Já o TikTok deixará de estar disponível em Hong Kong.
A luta pela liberdade de expressão e pela democracia deve ser uma luta de todos, e tal como Joshua Wong pediu, os países têm de ser solidários com essa região, porque “chegou o momento de apoiar Hong Kong”.





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