O impacto da Covid-19 na economia portuguesa
- Manuel Brito-Henriques

- 16 de jul. de 2020
- 17 min de leitura
A Covid-19 terá grande repercussões na economia nacional e mundial. No entanto, vive-se um enorme dilema. Por um lado, não se quer prejudicar a população, expondo-a ao novo coronavírus e obrigando-a a trabalhar e a fazer funcionar o comércio. Por outro, sem o funcionamento da economia e com uma crise económica à vista, a vida destas pessoas é igualmente posta à prova, porque os rendimentos irão baixar. Se Portugal no início era visto como um exemplo a seguir depois de ter superado as expectativas e não ter cometido os mesmos erros de Itália, a verdade é que neste momento o mesmo não se verifica, sendo Portugal o 2º país com mais casos em cada 100 mil habitantes, apenas atrás da Suécia, cujo modelo foi caraterizado como um mau exemplo. Esta mudança repentina na valorização do trabalho feito por Portugal, deu-se aquando do anúncio do Estado de Calamidade por parte de António Costa, e consequente fim do Estado de Emergência. O primeiro mês, foi um mês de muita precaução. Aos poucos, o comércio foi voltando à normalidade, dentro dos possíveis, num processo de desconfinamento, que ainda assim acabou por ser mal visto por alguns, que consideraram o processo demasiado rápido, para além de culpabilizarem o primeiro-ministro por, de acordo com a opinião de terceiros, este ter apresentado um discurso extremamente positivo e irrealista, o que acabou por “infantilizar a população”. Há quem seja da opinião de que apesar do desconfinamento tenha sido feito no momento certo, a população não respondeu da forma correta. Não foram cumpridas as recomendações de forma eficiente, especialmente a do distanciamento social, aquela que é vista como a principal.
Exemplos do não cumprimento das medidas indicadas pela DGS, passam pelo aglomerado de pessoas em transportes públicos, a festa ilegal em Lagos que acabou por infetar muitos dos participantes, tal como os ajuntamentos verificados nas Docas de Lisboa, na praia de Carcavelos e nas manifestações motivadas pelo movimento “Black Lives Matter” e “All Lives Matter”, que contaram com a presença de milhares de pessoas, sendo que a última aconteceu após novas regras mais restritas terem entrado em vigor na Grande Lisboa, numa tentativa de mitigar o número de casos e que se estende até aos dias de hoje, proibindo ajuntamentos na via pública com mais de 10 pessoas, o encerramento dos estabelecimentos de comércio até às 20h (os restaurantes podem manter-se abertos além das 20h caso sirvam refeições no próprio estabelecimento enquanto que os restaurante que funcionam em “take away” não poderão servir bebidas alcoólicas depois das 20h), a proibição de consumo de bebidas alcoólicas na praça pública, a proibição de venda de bebidas alcoólicas em áreas de serviço ou em postos de abastecimento de combustível, e por último, o reforço das forças policiais na região de Lisboa, um pouco à semelhança daquilo que já acontecera durante o Estado de Emergência. Quem não cumprir com estas medidas, sujeita-se a ser punido com multas até 240 dias ou com uma pena de prisão até 2 anos.
Se no início era principalmente a região norte aquela que detinha um maior número de infetados, a verdade é que essa tendência mudou bastante, devido às razões acima enumeradas. Aliás, a região de Lisboa e Vale do Tejo a 20 de junho registava mais casos do que a Itália, em 14 dias. Agora a dúvida subsiste, será que a culpa está nos exemplos dados, está no rápido desconfinamento, ou será uma junção de ambos os fenómenos? A verdade é que a origem acaba por não contar muito, visto que perder tempo a identificar a origem não arranjará uma solução para resolver os problemas, mas deve-se sim procurar soluções que visem controlar o vírus em Portugal, principalmente na Capital. Agora, essa minimização passa pelos cidadãos que terão de tomar precauções, porque a existência do vírus traz consigo outro tipo de problemas para além da detenção do vírus. O vírus é o principal inimigo da economia.
Tal como referido por António Costa Silva, gestor nomeado pelo primeiro-ministro para coordenar os trabalhos preparatórios do plano de relançamento da economia, a recuperação económica de Portugal “vai ser lenta” influenciada pelo “medo”. Contudo, António Costa Silva teve como base do discurso o “regresso das pessoas à normalidade”, o qual previa que fosse “mais lento”, o que de facto aconteceu, mas que não é a grande preocupação atualmente. A fase de regresso à normalidade já quase passou, assistindo-se neste momento a um receio maior para com o turismo, que está a ser e será influenciado pelo “medo”.
.A importância do turismo na economia de Portugal e as dificuldades que enfrenta:
O turismo tem um peso muito grande na economia portuguesa, especialmente durante o verão na região algarvia. Também Lisboa e Porto atraem muitos turistas, mas as recentes estatísticas referentes à Covid-19, têm afugentado os turistas, estando o setor do Turismo a atravessar uma grande crise, que afetará gravemente o comércio português. Aliás, o principal “fornecedor” de turistas a Portugal é o Reino Unido que já excluiu Portugal como destino turístico, pois considera que o país não está em condições de acolher britânicos. A importância do setor turístico pode ser dada pela seguinte estatística disponibilizada pelo Expresso:
No ano passado, o turismo assegurou cerca de 52,3% das exportações de serviços e cerca de 19,7% das exportações totais, além de ter acrescido o PIB numa percentagem a rondar os 8,7%. Portugal recebeu cerca de 27 milhões de turistas que geraram algo perto de 70 milhões de dormidas, o que trouxe benefício para a hotelaria, sendo que as receitas subiram mais do que 8%. No início deste ano até ao começo da pandemia, o turismo aumentou algo em torno de 36%, mas após o começo da mesma, rapidamente se verificaram descidas enormes no número de dormidas (menos 45,8%), no número de hóspedes (menos 44,8%) e nas receitas (menos 34,8%), desde janeiro até abril. Em abril, desceu em quase 97% (!), não indo além de 68 mil hóspedes e de 194 mil dormidas. Neste momento, há o tal medo de que se falava. O setor do turismo é atualmente visto de uma forma receosa, devido ao possível contágio entre as pessoas que chegam do estrangeiro e os residentes desse país, que acaba por não ser bem visto por nenhuma das partes. Portugal, é de tal forma dependente do turismo que criou, inclusivamente, um selo “cleen & safe”, de modo a ganhar a confiança dos turistas, com o intuito de demonstrar que estes se encontram em espaços limpos e seguros. Infelizmente, essa confiança não consegue ser conquistada devido ao número de infetados que é cada vez maior, numa altura muito crítica, pois coincide com o momento em que os outros países se preparam para reabrir fronteiras. Os hotéis que reabriram estão com um terço ou metade da capacidade, sendo que as previsões apontam para uma redução de 70% da taxa de ocupação e para uma redução de 89% das receitas, com perdas a rondar os 3,4 mil milhões de euros. Os hotéis algarvios apontam para perdas em torno de 800 milhões de euros, tendo uma faturação total a rondar os 450 milhões de euros. As receitas turísticas em 2019 rondaram os 18,4 mil milhões de euros, prevendo a ONU perdas até 12,4 mil milhões de euros para Portugal, equivalente a uma queda de 67% em receitas turísticas. Em anos de crise, o turismo foi fundamental para a recuperação do país. Atualmente, o mesmo não se verifica, pelo contrário este é o setor mais fortemente atacado.
Como visto, o turismo movimenta milhões de euros. O país precisa urgentemente de reduzir o número de infetados para voltar a promover o turismo.
Como escrito anteriormente, o Reino Unido, país que mais turistas “fornece” a Portugal durante o verão, principalmente, proibiu a chegada de portugueses a terras de “Sua Majestade”, e os britânicos que venham passar uma temporada a Portugal, quando regressarem ao país de origem, terão de ficar a cumprir quarentena, o que acaba por constituir um enorme obstáculo à presença de turistas britânicos em Portugal. Para além do Reino Unido, outros países adotaram a mesma regra. Constam nessa lista a Áustria, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Finlândia, Letónia, Lituânia e Roménia, já sem contar com países que apresentam restrições a Portugal, como é o caso dos Países Baixos, Malta, Estónia, Eslovénia, Bulgária e Bélgica.
Todas estas restrições, como falado anteriormente, terão repercussões graves no Turismo e consequentemente na economia portuguesa. Por essa razão, foi aceite a chegada de 2 mil jovens holandeses a Portugal, na semana passada. Este grupo de jovens deslocou-se a Albufeira, o destino da viagem de finalistas. Apesar de aumentar as receitas de hotéis e bares, para além de ser benéfico para o desenvolvimento da cidade, e consequentemente para o setor do turismo e, de uma forma ideal, para o Estado, a GNR foi chamada a intervir na Rua da Oura, Albufeira, e constatou incumprimentos da lei e das recomendações da DGS, como “estabelecimentos a funcionarem despois da meia-noite” e “consumo de bebidas alcoólicas na via púbica”, algo que tem acontecido frequentemente, naquele local, desde a chegada destes jovens. A GNR tentou sensibilizar os jovens e os proprietários dos estabelecimentos para os riscos de todos estes fatores, em especial o de ajuntamentos e a não utilização de máscaras. Para além destes acontecimentos naquela que é conhecida como a rua dos bares de Albufeira, um nadador-salvador referiu que na praia os holandeses ficam “em grupos, sem máscara, dão abraços, beijinhos, como se tudo estivesse normal”. O presidente da Câmara de Albufeira, José Carlos Rolo, admitiu a possibilidade de “as regras e recomendações no Países Baixos” serem “diferentes das que vigoram em Portugal” e as infrações cometidas poderão acontecer devido a “desconhecimento”. Por todas as razões anteriormente apresentadas, muito consideram necessária a chegada de turistas, mas há quem acredite ser igualmente necessário tomar cuidado e controlar a chegada de estrangeiros a Portugal, porque caso adoeçam ficarão ao cuidado dos hospitais portugueses, o que os sobrecarrega e afeta a economia portuguesa.
.Isenção Fiscal para a "Champions":
Numa altura muito complicada, principalmente para a economia nacional, o governo tomou algumas iniciativas. Antes de mais a questão “Champions”. Em primeiro lugar, há que destacar aquela que por muitos foi considerada “euforia em demasia” por parte da tutela aquando do anúncio da realização da “Liga dos Campeões” de futebol, em Lisboa. Numa altura em que se vivem tempos difíceis, a organização da Liga dos Campeões de Futebol deu que falar. Depois, uma afirmação de António Costa é também motivo de destaque, proferindo que a realização da fase final da Liga dos Campeões é “um prémio merecido aos profissionais de saúde”, algo que deixou muitos deles indignados. Houve quem considerasse que o papel do primeiro-ministro e do presidente da república deveria ter sido outro e que as verdadeiras preocupações foram deixadas para segundo plano ou até mesmo esquecidas. A juntar à cerimónia realizada no Palácio de Belém, tal como a própria realização da “Champions League”, numa altura em que Portugal é o 2º país com pior rácio de novos casos e a atravessar uma crise económica que se vai agravando ao longo da pandemia, foi aprovada por parte do governo, a isenção fiscal para a realização da maior competição de clubes de futebol da Europa, o que causou uma grande onda de inconformidade. Equipas, dirigentes, treinadores e jogadores estão isentos do pagamento de impostos, devido à isenção de IRC e IRS, pois tal como está escrito no comunicado do governo referente a esta questão “o regime fiscal imposto é em tudo idêntico ao que foi aplicado aos rendimentos auferidos no âmbito do Euro2004, bem como nas finais das competições UEFA Champions League e UEFA Women’s Champions League em 2004, e das competições UEFA Nations League Finals 2019 e UEFA Super Cup Final 2020”, sendo esta a justificação para a isenção de impostos a que a “Final-Eight” da Liga dos Campeões está sujeita este ano. A aprovação foi decidida em reunião de Conselho de Ministros, que contou com o chumbo da medida por parte de BE, Chega, PAN e da deputada não inscrita Cristina Rodrigues (ex-PAN) e com a abstenção de IL, PCP, PSD e CDS, o que acabou por ser aprovado pelo Parlamento, no dia 10 de julho. Na opinião de Mariana Mortágua, deputada do BE, “a UEFA não deve ser premiada com gigantescas isenções fiscais”, referindo ainda que se vivem “tempos de exceção” e que em momentos como este deseja “que se acabe com a exceção do negócio do futebol”, para além de que o partido esquerdista defende que a realização desta competição apresenta-se num contexto “notoriamente diferente” das outras competições. O PAN, através da líder parlamentar Bebiana Cunha, defende que as receitas que o Estado abdicará de receber com o pagamento de impostos por parte da UEFA, podiam ser utilizadas em causas que deveriam ser consideradas prioridade do Estado, como para medidas de cariz social, nomeadamente na redução de alguns impactos sociais resultantes do novo coronavírus, ao invés de beneficiar a indústria do futebol que tem “lucros milionários” em tempos de “crise sanitária”. Para além disso, Bebiana Cunha lança duras críticas à forma como o Conselho de Ministros aprovou esta medida, acusando o Governo de ceder “à chantagem da UEFA” e considera duvidoso que “este evento realizado num contexto de crise sanitária, traga externalidades positivas suficientemente grandes para justificarem este benefício fiscal tão elevado”, numa altura em que os jogos serão disputados à porta fechada, ou seja, as receitas que se fariam com os adeptos, à semelhança do que aconteceu na realização de outros eventos futebolísticos, este ano não existirão. Com todos os problemas que Portugal vai sentido, André Ventura à semelhança de Bebiana Cunha e Mariana Mortágua, comunica que “neste contexto é incompreensível”. O líder do Chega acrescenta que “é no mínimo questionável, quando não isentamos setores fundamentais haver depois isenção fiscal para a Champions”. João Cotrim Figueiredo, líder da IL (partido que acabou por se abster), demonstrou também o seu desagrado para com a isenção fiscal desta competição, porque não concorda “que haja um regime favorável aplicado a certas entidades estrangeiras, enquanto os portugueses continuam a ter de viver sob o peso de uma carga fiscal recorde, ainda por cima em tempo de crise”. O líder da IL conseguia entender a medida caso o retorno económico o justificasse, algo que acredita “que não é provável dada a ausência de público”.
.A compra da maioria da TAP por parte do Estado:
A compra de mais 22,5% da TAP por parte do Estado (que se junta aos 50% que o Estado já tinha a seu dispor) por 55 milhões ao investidor americano David Neeleman, e uma futura injeção de, pelo menos, 1200 milhões de euros, tem também estado em destaque. O ministro das infraestruturas, Pedro Nuno Santos, afirmou que não poderia garantir aos portugueses que o Estado não injetaria mais dinheiro nessa companhia aérea, estando a empresa a apontar para necessidades próximas de 3 mil milhões de euros, já que os 1200 milhões de limite mínimo não deverão ser suficientes para sustentar uma empresa que teve um prejuízo de 395 milhões de euros com apenas 15 dias de pandemia. Os aviões estiveram em terra, praticamente sem serem utilizados, durante 3 meses e só em agosto estarão repostas cerca de 25% da atividade, pelo que houve muitos meses de elevados prejuízos. Grande parte dos portugueses receia que o Estado injete milhares de milhões de euros na transportadora durante anos, ainda para mais numa altura de enorme vulnerabilidade económica. Pedro Nuno Santos considerou que a compra da maioria da empresa teve que ser feita porque “seria um desastre económico e social deixar cair a TAP”, dado que “a TAP tem 10 mil trabalhadores, compra 1300 milhões a empresas nacionais, muitas empresas dependem dela e deixávamos de ter o pagamento por parte da empresa de 300 milhões de euros em contribuições e impostos”, ademais, a companhia aérea “é a maior exportadora de serviços” e é responsável pela “compra a mais de mil empresas nacionais, num montante de 1,3 milhões de euros anualmente”, estimando que a falência da empresa teria um custo “muito superior a 1200 milhões de euros”, sendo por isso “a intervenção da TAP tão importante”. Pedro Nuno Santos assume, no entanto, que “1200 milhões de euros é muito dinheiro e a gestão tem de ser criteriosa”. O ministro das infraestruturas aproveitou para lançar duras críticas à IL e a quem partilha da opinião de que a TAP deva ir à falência, dizendo que “só os fanáticos religiosos da Iniciativa Liberal, acham que podemos deixar cair a TAP”, adjetivando-os de “irresponsáveis”. Os restantes 27,5% da empresa irão quase na sua totalidade para Humberto Pedrosa, dono e presidente do grupo Barraqueiro, que será também dono de 22,5% da transportadora aérea, alguém que Pedro Nuno Santos vê como “um empresário patriota” por não ter entrado “num processo de exigência ao Estado como fez o seu sócio David Neeleman”, e dessa forma irá manter “uma posição de relevância e um papel importante no futuro da TAP”. Os restantes 5% serão da posse dos trabalhadores.
Na opinião do comentador político e jornalista, Miguel Sousa Tavares, a crise que tem acontecido na TAP, em muito se deve aos “contratos imensos, palavrosos e mal redigidos, com cláusulas que, ou são secretas, ou são confidenciais, ou são dúbias”, o que causa uma enorme confusão em diversas pessoas, pelo facto de uma empresa que regista há muitos anos períodos de “falência técnica”, continuar com tantos trabalhadores e com ordenados tão elevados, para além dos prémios que a TAP acaba por oferecer aos seus trabalhadores.
A TAP, com a frota praticamente parada, algo que está diretamente relacionado com a ausência de turistas, recorreu ao “lay-off” simplificado, a medida que permite às empresas reduzir o salário dos seus trabalhadores, suspendendo-os das suas funções. Como tal, dos cerca de 10 mil funcionários que a empresa tem, 9 mil terão sido colocados neste regime a receber dois terços do ordenado, sendo que os restantes mil trabalhadores que continuaram a exercer as suas funções, continuaram a receber a mesma quantia que consta no contrato assinado com a empresa, assistindo a uma redução da carga horária. A juntar a este fenómeno, as contratações terão sido suspensas e os contratos não estão a ser renovados e deu-se também a criação de um programa de licenças sem vencimento, com duração de um a seis meses, onde estão inseridos 500 trabalhadores. Além de todas estas complicações e receios, teremos de recuar até 2019, quando a companhia aérea recebeu 200 milhões de euros, através de obrigações, compradas por 6092 pessoas, a troco de um juro de 4,375%. O Governo já admitiu a vontade de proteger esses investidores, e por essa razão está a ser discutido com a Comissão Europeia como se irá desenrolar esse processo, o que para já não se afigura nada fácil nem é visto como uma prioridade, já que há muitos portfólios que o Governo terá de resolver quanto à questão da TAP e, por esse motivo, não há garantias daquilo que possa acontecer com esses investidores, numa altura em que a reestruturação da empresa é a verdadeira prioridade
Como já escrito neste artigo, a TAP tem vindo a registar momentos de profunda tensão e a pandemia, pelas razões já referidas, atingiu negativamente todas as companhias aéreas, mesmo as ditas “gigantes” e, por esse motivo, em abril, Siza Vieira, ministro da economia, não deixou a nacionalização total da TAP fora das opções, afirmando que “o Estado não deixará de usar todos os poderes ao seu dispor para salvaguardar a posição estratégica da TAP”, e poderia mesmo “nacionalizar” se achasse “conveniente”, nacionalização essa que, segundo o ministro das infraestruturas, “não chegou a ser necessária”. Para dificultar ainda mais o processo de reestruturação da companhia aérea portuguesa, ao contrário das restantes companhias aéreas europeias, a TAP não teve direito ao auxílio monetário por parte da Comissão Europeia, uma vez que antes do início da pandemia a transportadora aérea já tinha apresentado dificuldades económicas, e este protocolo salvaguardava aquelas que tinham vistos os seus rendimentos descerem, única e exclusivamente, devido à Covid-19.
Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso entre 2014 e 2019, aponta para as dívidas que a empresa foi acumulando ao longo dos anos, dado “não receber injeções do Estado desde 1997”. Alertou também que não será apenas o Estado a perder neste momento, “mas quer os bancos, quer as empresas de leasing, quer os obrigacionistas entrarão numa mesa de distribuição de perdas”. Pedro Santos Guerreiro relembra que em março a venda da transportadora para a Lufthansa, a qual é uma empresa alemã de aviação de grande reputação na Europa, “esteve por um triz de se confirmar,” mas “veio a pandemia e tramou o negócio”.
A IL, através de João Cotrim Figueiredo, pediu para que fosse enviado ao Parlamento o “plano de liquidez acordado”, porque “os portugueses, acionista maioritário da empresa, têm o direito de saber se a TAP, (...) irá conseguir reembolsar este empréstimo ou se, pelo contrário, irá necessitar, a curto prazo, de ainda mais dinheiro dos seus impostos”, o que como lido mais acima, até mesmo para o ministro das infraestruturas é uma incógnita. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da república, relembrou que não teve qualquer voto na matéria, uma vez que se deu a compra da maioria da empresa e não a nacionalização da mesma, e que caso o que estivesse em cima da mesa fosse a nacionalização da companhia, admite que “teria muitas dúvidas em assinar”. Abordando a questão da compra da maioria da TAP por parte do Estado português, o presidente da república explicou que “foi um acordo de mercado, produzido pela pandemia, pela necessidade de injeção imediata de dinheiro, autorizada pela Europa, e pela falta de capacidade dos privados para poderem aumentar o capital”, enaltecendo, no entanto, que “se não tivesse havido pandemia, não tinha havido esta solução”, considerando que esta “foi a solução que restou”.
A opinião de Nazaré Costa Cabral, presidente do Conselho das Finanças, é de que tudo o que tem vindo a acontecer com a TAP é preocupante e que “é preciso olhar para os custos sociais associados”, acrescentando que para dar resposta a tudo isto o Estado “tem de ter capacidade financeira”, algo que Nazaré Costa Cabral receia que ponha em causa “coisas tão fundamentais como ter hospitais a funcionar e médicos a trabalhar”. A presidente do Conselho das Finanças defende que o relatório que acompanha a proposta de Orçamento do Estado suplementar “deveria ter sido mais detalhado” e que “não houve clarificação total dos esclarecimentos pedidos” pelo Conselho das Finanças. Nazaré Costa Cabral aponta para “desafios muito complexos” que o Estado tem “pela frente”.
Já o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, defende que o Estado deve injetar dinheiro em mais empresas “ou mais tarde vai ter de gastar muito mais dinheiro ao nível de prestações sociais”, não compreendendo como é possível “aparecerem 1200 milhões de euros, quando é necessário injetar dinheiro na TAP”, mas não haver dinheiro que sirva como ajuda para “empresários que empregam 100 mil trabalhadores e representam cerca de 750 milhões de euros de volume de negócios, que são um serviço altamente competitivo e diferenciado do ponto de vista exportador”, procurando descrever o que se passa no setor dos serviços, a propósito da visita a empresas de montagem de estruturas de eventos, que decorreu no dia 7 de julho. Francisco Rodrigues dos Santos alega que o setor está ainda “absolutamente confinado”. O líder do CDS-PP exige ao Estado apoios “para que essas empresas possam sobreviver”, como por exemplo, o prolongamento do “lay-off” simplificado até final do ano (está previsto até final de agosto) e crê que o “Estado tem de ser rápido a pagar aquilo que deve às empresas e a colocar o dinheiro a circular na economia”, dívidas essas que já ascendem os 1624 milhões de euros, para além daquilo que já terá de ser gasto para a reestruturação e sobrevivência da TAP.
João Costa Pinto, economista português, em entrevista ao jornal “Eco” expressou o seu pessimismo relativamente à ação do Governo em assegurar a maioria da TAP. O economista receia que “não tenham sido bem avaliadas as consequências financeiras do passo que foi dado”. João Costa Pinto mostra-se perplexo pela forma como “um país que, tendo as dificuldades que tem, se dá ao luxo de dar milhares de milhões de euros a uma empresa de um setor com as dificuldades terríveis da TAP”, admitindo por outro lado que “ter uma empresa a voar com as cores portuguesas pelo mundo é importante”, mas que “temos de ser realistas”, aproveitando para criticar o momento em que Pedro Nuno Santos afirmou que “a TAP é quem traz 50% do fluxo turístico”, o que levou o economista a alegar que o ministro “não está a ser honesto”.
O colunista do Expresso e comentador do programa televisivo “Eixo do Mal”, Daniel Oliveira, apoia também a ideia de que a falência da TAP teria um enorme impacto negativo no turismo e, consequentemente na economia de Portugal, que tal como apresentado neste artigo, é a principal área económica que, segundo Daniel Oliveira, mais tarde ou mais cedo “irá voltar”. O mesmo admite que ficaria impressionado se o Estado, “que está a salvar diversas empresas”, deixasse falir uma das principais empresas da “principal atividade exportadora do país” e que, no entanto, não a deixando falir, consiga não repetir aquilo que se passou com o Novo Banco. O colunista acha legítima a posição de apoiar a falência da empresa, embora não concorde com essa possibilidade por julgar que está “errada do ponto de vista económico”, porque a falência “traria mais custos para o governo” a longo prazo.
A cronista do Expresso e comentadora do mesmo programa televisivo, Clara Ferreira Alves, começa por acusar o PS de “ter largas responsabilidades do que aconteceu à TAP, no dia em que o ministro Jorge Coelho convidou Fernando Pinto para a TAP, e trouxe o Brasil para a empresa”, classificando os últimos anos de Fernando Pinto na transportadora aérea como “desastrosos”, fazendo passar a TAP por inúmeros problemas a nível económico. Clara Ferreira Alves defende que “a TAP não vale nada”, e por essa razão, não vê a intervenção do Estado com bons olhos, ponderando a alternativa de “deixar falir a empresa e abrir uma empresa ao lado com outro nome”, assumindo, no entanto, não saber “quais seriam os custos” para que tal acontecesse. A colonista diz ter apreciado a saída de investidores brasileiros da companhia, tendo a opinião de que “não serviram para nada” e espera que o Estado consiga recrutar uma “gestão competente”. Criticou também a decisão de António Costa em ter relegado “o ministro Pedro Nuno Santos e Diogo Lacerda a gerir a mesma pasta”, porque têm “opiniões e até ideologias diferentes”, o que “dá sempre mau resultado”, e não tem “esperanças que a TAP seja reestruturada”, prevendo que “milhares de pessoas” irão ser despedidas e que a empresa não irá fazer “1 cêntimo de lucro” daqui para a frente, abrindo a possibilidade de vir a ser “pior do que o Novo Banco”.
Já dia de 10 de julho, e mediante a compra da maioria da empresa, uma proposta de auditoria à gestão da TAP foi entregue, através de uma iniciativa do BE e apoiada por todos os partidos que constituem a oposição. Essa proposta tem como objetivo “obter todos os esclarecimentos de uma gestão que levantou demasiadas polémicas”, e caso seja necessário, recorrer a uma “possível indemnização ao Estado”, aproveitando para deixar duras críticas aos acionistas privados e à gestão da empresa, alegando a existência de “queixas de inúmeros cliente, os conflitos laborais que têm vindo a criar ou o corte de relações com o Estado” e “a atribuição de prémios a alguns administradores apesar dos prejuízos nos últimos 2 anos”.
Todos os assuntos abordados neste artigo terão impacto na economia, já débil, do nosso país. Nós, cidadãos portugueses, temos o dever de cumprir com a nossa parte para não agravar aquilo que pode ser um presente e um futuro de grandes dificuldades para Portugal. Esta é uma luta de todos.
(imagem de capa da autoria de Afonso Silva)



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