Portugal em chamas
- Manuel Brito-Henriques

- 23 de jul. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de jul. de 2020
Os anos passam, o problema mantém-se. Portugal continua a ser uma vítima dos incêndios que se fazem sentir, principalmente, no interior do país. As respostas a estas catástrofes continuam a não ser suficientes.
De acordo com o relatório “O Mediterrâneo arde”, lançado pela WWF (a organização não governamental, “Fundo Mundial para a Natureza”), ardem anualmente em Portugal cerca de 140 mil hectares, distribuídos entre mais de 22 mil incêndios. A média dos restantes países mediterrâneos ronda os 11 mil incêndios anuais, metade dos que são registados em Portugal. A Espanha é a que aparece imediatamente atrás do nosso país, registando menos 10 mil incêndios do que aqueles que ocorrem no país mais a sudoeste do continente. Através de informação oriunda do “agroportal” é possível verificar-se a evolução dos incêndios rurais nos últimos anos, estabelecendo uma comparação precisa com o que se passava em 1980. Desde esse mesmo ano, o número de incêndios tem sido cada vez maior, pelo que entre 2009 e 2018, os incêndios ocorridos foram responsáveis por 68% da área total ardida em Portugal, que podem ser explicados por fatores como o aquecimento global e, na maioria das vezes, fogo posto ou queimadas. Entre as décadas de 1960 e 1970, as áreas rurais assistem a um aumento da área ardida, explicado pelo êxodo rural que abre portas a um maior descuido na proteção da natureza. Contudo, o crescimento súbito e avassalador de hectares ardidos deu-se entre 1974 e 1990, onde, em 1974, povoamentos com 5 mil hectares não constavam nos registos de áreas ardidas, enquanto que em 1990 já se registavam povoamentos com 50 mil hectares ardidos, um crescimento significativo mas que viria a aumentar muitíssimo, como se verifica no início do século XXI, onde as áreas ardidas ultrapassavam os 300 mil hectares, o que representa um crescimento de 255 mil hectares de povoamentos ardidos. Desde o início do século até agora, ou seja, em 20 anos, deu-se um crescimento em mais de 200 mil hectares, contando com algo entre os 500 mil hectares e os 600 mil hectares ardidos.
O caso de Pedrógão Grande está bem presente na memória dos portugueses, mesmo 3 anos depois do mais grave incêndio alguma vez ocorrido em Portugal. Um relatório elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais e posteriormente entregue à ministra da administração interna, alega que o incêndio tenha sido originado pelo contacto entre uma linha elétrica de média tensão e alguma vegetação. O incêndio e o seu consequente alastramento, que acabou por dar fim à vida de 65 pessoas, deveu-se, segundo o relatório, ao mau “comandamento”. O grande incêndio foi uma junção do fogo de Escalos Fundeiros com o de Regadas, que terão sido “menosprezados”, pois até que estes 2 incêndios se juntassem foi utilizado “apenas um meio pesado de combate”, além de que “várias entidades desconheciam” a existência dos incêndios. O mesmo relatório acusa as entidades de terem tido uma reação “claramente tardia” e de ter havido uma falha de comunicação entre todos os meios envolventes que “terá contribuído para a falta de coordenação dos serviços de combate e de socorro, para a dificuldade de pedido de socorro por parte das populações e para ao agravamento das consequências do incêndio”. O relatório refere ainda a falta de planeamento e prevenção para ajudar a população durante o incêndio, o qual fez parte da sexta geração de incêndios, incêndios esses que são caraterizados como “tempestades de fogo” devido à “intensidade libertada que permite dominar a meteorologia da área envolvente, criando condições de tempestade e propagação extremas”.
Para além do caso de Pedrógão Grande, em outubro de 2017 vários hectares arderam e deram fim a muitas mais vidas. No total foram contabilizadas 50 mortes (menos 15 do que em Pedrógão) e cerca de 220 mil hectares ardidos. Entre os dias 14, 15 e 16 de outubro de 2017, vários incêndios rurais assombraram 6 distritos da região Centro do país e 2 da região norte. A Comissão Técnica independente (CTI) foi responsável pela avaliação do ocorrido, apontando para a incapacidade de “previsão e programação” dos vários incêndios. A Autoridade Nacional de Proteção Civil afirma que não obteve “autorização a nível superior” e que a atuação pouco eficiente por parte do INEM se deveu à perda de rede. Estes dias permanecem marcados pela “falta de meios, ficando as populações entregues a si próprias”. A perda de controlo dos incêndios teve como principal motivo a “dificuldade de mobilizar forças suficientes perante o número de ignições que se sucediam”.
Na sequência dos incêndios desse ano, o governo português impôs algumas medidas que, através de uma reforma na Proteção Civil, a prevenção e combate aos incêndios seria lidada de forma mais profissional. As medidas passam pelo papel reforçado das forças armadas na prevenção e combate aos incêndios, por um modelo mais profissional no combate aos fogos, pela criação do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, pelo investimento de milhões de euros em contratações de 100 equipas de sapadores e de 50 vigilantes da natureza, e pela utilização de biorrefinarias e centrais de biomassa com o objetivo de valorizar a recolha de resíduos florestais. Este ano foram destacados 108 militares para prevenir a existência de incêndios florestais, até 30 de setembro. O orçamento para combater e prevenir os incêndios subiu, entre 2017 e 2019, em 121 milhões de euros, contribuindo para que Portugal pudesse despender 264 milhões de euros nesta matéria, destinando-se 132 milhões de euros para a prevenção de incêndios e outros 132 milhões de euros para o combate, através de dados disponibilizados pelo Expresso.
Apesar de as medidas apresentadas terem, tal como se verifica nos dias de hoje, contribuído para uma grande redução da área ardida (cerca de 69%) desde 2018 até agora, a verdade é que o número de incêndios continua muito elevado. O mês de julho tem tido diversas ocorrências, em especial na região Centro e Norte de Portugal, mas outras áreas foram também afetadas, como o Algarve, Alentejo e até mesmo a Área Metropolitana de Lisboa. No dia 17 de julho, Portugal Continental entrou em situação de alerta, que numa primeira fase se estenderia até dia 19. Porém, devido às temperaturas elevadas que seriam de esperar até ao dia 21 de julho, essa mesma situação de alerta foi novamente estendida, desta feita até esse mesmo dia, uma vez que já vários incêndios se faziam sentir na parte continental de Portugal. O dia de 18 de julho registou 160 ocorrências em todo o país, necessitando o auxílio de 58 meios aéreos. Nesse mesmo dia, morreu um jovem bombeiro de apenas 34 anos, na freguesia do Arrabal, em Leiria. As áreas que maior preocupação causaram aos 3700 bombeiros que combatiam os vários fogos foram Valongo, as freguesias do Arrabal e Barreiral (em Leiria), Ourém, Vila do Rei, Viseu, Vale de Cambra e Paredes, onde algumas pessoas tiveram de ser retiradas das suas próprias casas. Para além de todos estes acontecimentos trágicos, há que destacar o drama que se viveu em 2 canis ilegais, resultado de um incêndio em Sobrado que se alastrou até à freguesia de Agrela, no município de Santo Tirso, tirando a vida a muitos cães e gatos, o que tem gerado muitíssimas queixas e uma investigação muito profunda em torno das donas desses abrigos. Os incêndios continuam em grande força, algo que se prevê continuar enquanto as temperaturas permanecerem tão elevadas.
98% das ignições que resultam em incêndios em Portugal têm, na sua origem, intervenção humana, isto embora o risco de incêndios com temperaturas mais elevadas seja, também, um forte indício para que tal aconteça. A propagação rápida dos fogos é outro grande problema, algo que é motivo de grande preocupação. A Espanha, pode ser vista como um exemplo a seguir por parte de Portugal. Os espanhóis viveram, em 1989, um ano muito complicado, com mais de 20 mil fogos na Galiza, que acabou por obter uma resposta muito rápida por parte dessa mesma região autónoma, arranjando novos métodos de prevenção e combate a incêndios, embora tenha levado décadas até se conseguir reduzir a área ardida para menos de metade, numa região com caraterísticas semelhantes às regiões Centro e Norte de Portugal Continental. A verdade é que mesmo com resultado demorosos, estes estão à vista, uma vez que a reação foi bastante rápida e focada em salvaguardar esse território. Em comparação entre os dois países, Portugal apresenta uma área ardida- como apresentado no início deste artigo- bem superior à de Espanha, mesmo que o país mais a Este da Península Ibérica, na década de 1980, tenha tido mais 400 mil hectares ardidos do que Portugal.
Os portugueses terão então, segundo as previsões, mais um ano bastante complicado
no que aos incêndios diz respeito, mas com melhorias significativas relativamente aos anos anteriores. Resta agora saber se mais medidas serão utilizadas nos anos que se avizinham, de forma a se controlar um dos fenómenos que mais preocupa a população portuguesa.





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