Terror em França
- Manuel Brito-Henriques

- 29 de set. de 2020
- 3 min de leitura
No passado dia 25 de setembro, Paris voltou a ser alvo de um ataque terrorista, desta feita junto à antiga redação do Charlie Hebdo, local que desencadeou os recorrentes ataques na Europa, por parte autoproclamado Estado Islâmico, em 2015.
O ataque referido contou com duas vítimas de esfaqueamento, que sobreviveram. Consta-se que tenham sido sete os envolvidos no planeamento deste ataque, mas o principal suspeito de ter tomado a ação é um jovem de apenas 18 anos, de nacionalidade paquistanesa, que já confessou ser o autor do crime. O colega de quarto desse jovem, um franco-argelino de 33 anos, consta na lista de suspeitos. A casa desses jovens adultos foi alvo de investigações, onde se encontravam os restantes suspeitos de planearem o ato terrorista, com idades compreendidas entre os 24 e 37 anos.
O ataque aconteceu 23 dias após o início do julgamento referente ao massacre no Charlie Hebdo em 2015. Nessa altura, os irmãos Kouachi invadiram a sede do jornal satírico, vitimando mortalmente 12 pessoas e ferindo outras 5. Em três dias de extremo terror, também Amedy Coulibaly invadiu um supermercado, matando 4 civis e uma agente da polícia municipal. Estes massacres serviram de resposta a uma publicação do Charlie Hebdo, que deixou muitos muçulmanos indignados, motivando ataques por motivos religiosos. Esse ataque originou, nos anos que se seguiram, inúmeros atentados em diversos países europeus.
Segundo dados apresentados no site oficial do Parlamento Europeu, 2015 representou o início de uma nova vaga de ataques terroristas jihadistas. Em 2014 tinham-se registado 2 atentados. No entanto, após o já falado ataque à Charlie Hebdo, foram apontados 17 atentados em 2015, 13 ataques em 2016, 33 massacres em 2017 e mais 13 em 2018, os quais acabaram com a vida de, sensivelmente, 364 cidadãos. Todavia, foram detidos, no espaço de 4 anos, cerca de 3016 terroristas, acusados de planearem determinado ato terrorista. Destes diversos ataques podem-se destacar os graves incidentes ocorridos na Dinamarca (Omar el-Hussein invade um centro cultural, disparando contra o cineasta Finn Norgaard, matando-o, e contra 3 polícias, ferindo-os. Na mesma noite, junto a uma sinagoga, assassina um judeu, ferindo mais 2 polícias), o atentado à sala de concertos Bataclan e aos restaurantes e cafés em seu redor (durante o concerto da banda “Eagles of Death Metal”, membros do Daesh invadem a sala e disparam contra as pessoas que aí se encontravam e para os restaurantes localizados junto à sala de espetáculos, acabando com a vida de 130 pessoas e ferindo outras 350), as explosões no aeroporto de Zaventem e no aeroporto de Bruxelas (estes 2 ataques terroristas, que aconteceram na Bélgica, terão matado 34 cidadãos), o atentado bombista no aeroporto Ataturk (mais de 40 pessoas perderam a vida e centenas ficaram feridas na tragédia de Istambul, Turquia), o atropelamento em Nice no dia nacional de França (foram mortos 84 indivíduos, que assistiam ao fogo de artifício, por um camião que embateu na multidão), o atropelamento num mercado de Natal em Berlim (12 sujeitos perderam a vida na capital alemã, num trágico acontecimento com caraterísticas semelhantes ao sucedido em Nice), o ataque bombista durante o concerto de Ariana Grande em Manchester (mais de 2 dezenas de habitantes faleceram após um bombista suicida se ter explodido no meio da multidão), entre outros.
Porém, nos últimos anos, não se têm registado episódios de tamanha dimensão. O apoio dos Estados Unidos da América (EUA) às Forças Democráticas Sírias (FDS), terão contribuído para o enfraquecimento do Estado Islâmico, no início de 2019. O porta-voz do FDS, Mustafa Bali, declarou mesmo “a total eliminação do chamado califado e a total derrota territorial do Estado Islâmico” que chegou a controlar até 88 mil km2 no norte da Síria e do Iraque, tendo na sua posse inúmeras armas e mercadorias que provinham da abundância de petróleo, fora a riqueza que fazia a partir de sequestros e roubos, úteis no planeamento e realização de ataques terroristas como os já destacados. A aliança entre FDS e EUA acabou por destruir a maior parte das bases do Daesh. Contudo, em agosto de 2020, a ONU alertou para o ressurgimento do Daesh, no norte da Síria e do Iraque. Este ano, o número de ataques promovidos pelo Estado Islâmico tem sido muito maior face ao que se passou no ano passado, essencialmente no Médio Oriente, com especial destaque para o Afeganistão. A ONU identificou como maior preocupação para os países europeus, a tentativa de radicalização através da Internet. Este “rejuvenescimento” do Daesh pode trazer para a Europa uma nova vaga de terror, podendo o ataque ocorrido em França, na semana passada, ser representação disso mesmo.
Para já, não há razão para grandes alarmismos. É necessário compreender-se que o radicalismo de uns não representa a ideologia da religião em causa. O fanatismo promovido por esta organização radical é reprovado pela maioria dos muçulmanos. A ONU tem estado atenta a possíveis desenvolvimentos.
Imagem de Afonso Silva





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